sexta-feira, 2 de março de 2012

feitiços

  Se eu te deixasse
              me formar,
    segurarias o grito
          quando voltasse
a trapaça?

                             Cantar o suor! - na pedra,
                   menta e camomila -,
                                        a oração de hoje.
A abadia sem torres nem murros
                           (intransponível)
  crepitando o fogo
                                morto de tempo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

a estátua no meio de meu quarto –
      parada –
a cortina não fecha mais
a estátua sob o sol, a estátua à lua
todos os dias eu lhe deixo um prato
de figos secos
e um pouco de iogurte

no quarto há um pequeno  santuário:
a estátua matou toda a sua família
e o fez com as partes de seus corpos
ao menos, com as partes que não engoliu
(eu ouvi dizer)

porque
sua mãe lhe trocava os lençóis do colchão
e porque seu irmão  arejava o quarto
quando o ar ficava espesso demais

os narizes estão à base
do santuário
e os adornos laterais,
as falanges da mão

a estátua sob o sol
amarga
mas a noite vem
e a estátua amarga

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

rédea


as folhas murcham lamentos ao vento
e as frentes marcham em tropa ao sol
nessa noite de cortinas cerradas
te sento e faço tranças em teus cabelos

sem segredos, há espuma no ar
e não respiro mais que a maciez
que já me sufocara, pelas tranças
que me estrangulavam e que agora

delicadamente preparo, embora
sem ver que há fogo em minhas mãos em prece
e que queimo a mim e a ti - mas ainda

tu sorris como uma noiva em fumaça;
embotado o tempo e o meu sentir,
te faço tranças em teus cabelos

domingo, 20 de novembro de 2011

tem caspa nas lentes do meu óculos
e pó nas arestas do meu coração

sábado, 1 de outubro de 2011

areia

além do mato
além da chuva
além do rastro
além do fado
longe das mãos e
perto o suor
longe dos lábios mas
rouco paladar
sobre o asfalto
as penas secam
se deita de lado
meu canário morto
    é antes da garganta que o mato
    é todo seu peito meu retrato

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

o espelho no espelho

se o tempo desaparecesse da memória:
se a memória do tempo
desaparecesse da memória:
se o tempo da memória
desaparecesse do tempo:
se a memória desaparecesse do tempo:
se o tempo desaparecesse da memória: 
se o tempo desaparecesse da memória:
se o tempo desaparecesse da memória:
se o tempo desaparecesse da memória:
se o tempo desaparece se a memória
desaparece:
cesse memória:
cesse tempo:

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

se o amor acaba: não acaba
que não há mentira que termine
ou tampouco se inicie
mas sendo o amor mentira
como bola de chumbo que reverbera
num lago plano de realidade
e bola fosca sem brilho do
mais brilhante desinteresse
como posso amar aquilo que me interessa
invés de amar ao revés