terça-feira, 6 de dezembro de 2011

rédea


as folhas murcham lamentos ao vento
e as frentes marcham em tropa ao sol
nessa noite de cortinas cerradas
te sento e faço tranças em teus cabelos

sem segredos, há espuma no ar
e não respiro mais que a maciez
que já me sufocara, pelas tranças
que me estrangulavam e que agora

delicadamente preparo, embora
sem ver que há fogo em minhas mãos em prece
e que queimo a mim e a ti - mas ainda

tu sorris como uma noiva em fumaça;
embotado o tempo e o meu sentir,
te faço tranças em teus cabelos

domingo, 20 de novembro de 2011

tem caspa nas lentes do meu óculos
e pó nas arestas do meu coração

sábado, 1 de outubro de 2011

areia

além do mato
além da chuva
além do rastro
além do fado
longe das mãos e
perto o suor
longe dos lábios mas
rouco paladar
sobre o asfalto
as penas secam
se deita de lado
meu canário morto
    é antes da garganta que o mato
    é todo seu peito meu retrato

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

o espelho no espelho

se o tempo desaparecesse da memória:
se a memória do tempo
desaparecesse da memória:
se o tempo da memória
desaparecesse do tempo:
se a memória desaparecesse do tempo:
se o tempo desaparecesse da memória: 
se o tempo desaparecesse da memória:
se o tempo desaparecesse da memória:
se o tempo desaparecesse da memória:
se o tempo desaparece se a memória
desaparece:
cesse memória:
cesse tempo:

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

se o amor acaba: não acaba
que não há mentira que termine
ou tampouco se inicie
mas sendo o amor mentira
como bola de chumbo que reverbera
num lago plano de realidade
e bola fosca sem brilho do
mais brilhante desinteresse
como posso amar aquilo que me interessa
invés de amar ao revés

sexta-feira, 15 de julho de 2011

À compatriota Ofélia

Ah, pelas veias que me querem
na cabeça uma couve
um repolho
faço de todo meu corpo um legume,
a desfraldar bandeiras mais sonoras
que o discurso de tantos cílios que me foram
(ai, adiados)



Um destroço, seja,
que a saudade que me cora
é a saudade
como um galho a me furar o olho
apagar de cigarros a machadadas

(e medíocres caminhos:
 em grandes vergonhas)



Ao incendiário
que após quando só brasas
-
o fogo que consumiu
 (resta a falta que reina) -
ah, mas quando estava tudo por destruir
que chances, que doces gargalhadas
encobertas

sexta-feira, 1 de julho de 2011

5:36

Orelha da terra, espasmo metódico
desgraça as costas e deixa atrás
Huáscar, que pressão te fez trair?
Batida de glote...

fechada e abre-se num momento que nunca houve, aberta
num dia de sempre

Da garganta que dança aos braços abertos, dedos
que olham sem uma palavra

broca broca botca broca
Ah, um engasgo parafimótico a ar rebentar

CANDELABRO

para onde vim
de onde vou
diante estou
desse ponto

com jeito
esse jeito
eleito
assim feito
de final
Como quando a gente, cansado,
deita-se de costas na madeira do chão e as bochechas pesam
e escorrem às orelhas
e o queixo côncavo, uma caverna de
todas as vergonhas, enfurna-se
e no pulso, sob os tetos do céu
ou sob o céu do teto que mais vemos,
essa inapetência que foge à palavra sobe-nos
assim, melindrosa, lasciva, clandestina...

Mas não me possui: não porque não deixo,
mas porque não tem como:
Sou ela, tanto também ela me é que,
sozinhos,
dividimos o silêncio de agonia - outro, o silêncio
que se lança de dentro da gente
independe dessa mesquinharia, dessa cama, da almofada,
é sagrado e não se verga porque é curva só e diferente -

O nosso silêncio que não veio porque desejado,
talvez desgraçado mas aceito por pusilanimidade,
aceito, embora dentro, onde falta o som igual,
o ruído de uma garganta engasgada com o Dia que lhe é pesado
esganiça por mais alma, alguma alma
e num descaramento, finjo perguntá-la
por o que mesmo havia trocado a mim mesmo.
(24/08/2010)
torta sombra estendeu-se
no assoalho dessa casa

como um animal empertigado
passou por entre o tapete e fez as vezes
com o vaso que rachara

no meu despudor,
menos para me assossegar do que me arrepender depois
fechei as cortinas
(22/05/2010)

Pictúria

Gente de vida vivida através de janela empoeirada,
erght,
acre, intragável!
Vida de futebol na rádio no lusco-fusco de um dia de calor.
Vida de música pop americana de fundo nos vapores de uma casa desdita.
De toalha de mesa de como nada mudou.
De coração seco engasgado sem saber porquê.

O que se salva é o brócolis no vapor.
(23/04/2010)

Outra coisa que seja

Eu suei minha espontaneidade
toda
Meu corpo não é mais de fumaça,
oras!
Que era que ser, se não fosse assim?

Eu acho que essa distinção
entre eu
E entre todos vocês,
e entre tudo que não é vocês
Enterra fundo, anoitece, asfixia
essas centelhas de amor natimorto

Pô.
Não fosse assim, que era que ser?
Qualquer coisa
outra.
Esse mar congelado,
sem martelo sem picareta,
sem falta sem compromisso,
que divide e extingue,
sem pedir perdão.

Tantas palavras que seriam!
E seriam!
E nunca sairão desse claustro
desse futuro do pretérito que não foi!
(23/04/2010)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A pequenez das pinhas que
os garotos chutam e brincam
mas rolam abaixo, esquecidas,
quando o céu se aquarela:

terça-feira, 7 de junho de 2011

Com sotaque luso

Às traças que soem deixar-me só:
não me surpreende que vão todas embora
ao final,
afinal me surpreende tanto mais que nunca seja eu deixado
a não ser por mim mesmo,
que seja o primeiro a ir, tão cedo que me corre a minha própria falta
ao longo da saudade que sonhei ter.

Que bom se sentar à janela e saudar! Enquanto a observar
as costas dos que se vão, saudá-los, sem mais que
saudá-los quietamente com a serenidade das saudações não percebidas.
Quão bom não seria?

Respirar a brisa do fim da tarde e cambalear num choro mais ou menos,
com toda a elegância de quem chora em segredo.
E ainda se para alguém que já foi e me esquecera!
Meu coração transbordante, a latejar. faria de mim
mais que um casulo de ontem, a secar-se e quebrar-se no tempo
em tantos pequenos
pedaços,

terça-feira, 31 de maio de 2011

quando choro fico inchado
o mundo está mais gordo
de tanto segurar o choro
(01/04/2010)

Mimérrimo

Poço sem fundo
peito enfezado
umas duas moscasplumas
assustam as moças
(27/10/2009)

Fronte caída

Por favor,
diga que não dirá por favor por mim,
não me faça pedir por favor,
não me peça

Grotesco,
não vê no escuro
que mesmo em suas cobertas e seus cigarros apagados
eu mal me aguento de pé
e tem milhas de pés sobre mim
(07/10/2009)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Eu infrene
sem poder parar
de me frear

Coração de pedra
caindo, não para
de me sequestrar

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Eu não me basto,
por fim
eu me exagero
em ti
(15/09/2009)

Cerne humano

Traduzi longos e estranhos passos
em uma outra linguagem
língua de palavras
mudas

E ela me olhou
e brilhou, suou
todas as penas caíram
e a pomba se orgulhou
de sua fluência
(20/09/2009)

Retrocircular

Passarinhos, três árvores
vento e manhã invadindo pela janela,
depois
e não me sinto bem comigo
por querer cada cor que não conheço
e deixar cair o ritmo
na cinza do último cigarro
antes de lembrar quem sou
(28/09/2009)

Facada

Se eu fosse completo:
me esqueceria que vivo,
me deixaria em cacos,
tendo a convicção de poder me juntar tudo de novo.

Lembraria da vida só quando ela fosse imutável:
a cada gota de água dessa chuva que bate nos vidros
um baque ecoaria por dentro de mim, se exteriorizando,
se tornando a gelada marcha da vitória,
a incompreensão solitária e nunca desgastante.

Se eu fosse inteiro:
diria que sou denso,
não renegaria cada sorriso humano,
abraçaria as ondas que quebram em meu torso imóvel.

Me esgotaria.
Me faria sujo, me jogaria aos prantos e rolaria nos seus azulejos,
imploraria por uma espectral visão dessa Luz,
que se faz em você.

Não posso ser completo.
Não é um choro que me destrancaria,
não é a minha vitória,
não é a minha culpa.
Não foi. Eu, nunca foi eu.

Beleza não é distinta. Separada da náusea e do pavor, como ela brilharia?
Ressôo. Oco.

Se eu fosse completo:
rezaria para derreter.
(24/08/2009)

Madrugou o sol

Te difere e
fere e
noutra vida poderia passar sem tudo
tudoisso e
desacredito e me aqueço tudo
tudo de novo e
nada de novo, afinal
(28/08/2009)

Trópico

Para quem tudo é óbvio,
o óbvio perde a distinção.
Para quem junta pedaços,
pedaços se tornam um todo.

Para quem enxerga descolorido,
o azul do céu é inconcebível.
Para quem cujas almas são de secura,
um olhar apaixonado é um oásis.

Para quem vive de amor,
mais amor sempre existirá
e mais amor será desejado.

Se eu perdesse o seu olhar,
e no meu desejo ele fosse impossível,
racharia até secar inteiro.
(11/06/2009)

Parada respiratória

Quem procura versos antigos demais só encontra calçada,
esculturas de gesso deitadas na garagem da frente,
quebradiças como essas algemas deveriam ser.

Mas ela apenas não se cuida,
esquece das anfetaminas nos concentrados artísticos,
aumenta a queda por cada tentativa persistente.

Para cada lance de degraus que desaparece,
para trás e por debaixo das solas gastas,
a temperatura sobe e as apostas correm.

Corre também quem precisa,
quem procura precisar se abaixa quando tempesteia,
a flor de vento que envolve e deixa um beijo para
ser esquecida depois de marcada como um sinal de outros tempos.

Que sempre serão de ouro, quando visitarmos o futuro,
o que aguardar para o passado trazer
mais para perto e poder, assim, esquecer?

(Só lamentos para os que são nobres:
"Sua disposição matinal lhe enterrou nas fronhas mal-lavadas, meu senhor."
Cicatrizes que vingam ao lhe pintarem a flácidez indiferente da pele branca,
a indizível falta do que dizer pela perfeição não idealizada pelo faxineiro do tempo, -
eu não quero limpar restos não usados.
"Se faço o que deve ser feito é porque preciso fazer o que é preciso que eu faça feito.
Quando canso é que logo lembro que não sou quem finjo ser. Deveria parar agora mesmo, só me engano, humanitário, baboseira. Filantropia é a tentação infernal de pagar pelos pecados, é a maneira mais indigna e cômoda de procurar exterminar todo o ressentimento roxo que me contamina os poros e me faz chorar em toda noite verdadeiramente bela, enquanto a honestidade dentro das demais pessoas as faz aproveitar toda a grandiloquência dessa falta de exatidão no mundo."
"Tudo de que eu preciso é comida no final do dia, o resto são devaneios de quem veio ao mundo com mãos sem calos."
"Você é uma princesa por não se atormentar."
Os calos não respondem.
A noção de propriedade, de persona, de egocentrismo mental, a simples noção do "eu" não tem espaço nessa história. É tudo baboseira.)

É muito fácil enrolar linhas,
é muito fácil sorrir no final,
vestir-se e despir-se,
aproveitar os momentos,
sorrir no final.

Se eu soubesse o que é difícil não estaria aqui,
eu teria fronhas sujas.

(E espero. Até lá ninguém as lava.)
(15/05/2009)

Espuma

no ventre do sol,
escorrendo seus
olhos, sangue em pé
nos dedos rasgados

ou grandes espaços
não sabem, aumentam 
repetem o dia :
um cristal rasgado,

bege em flor de náusea,
faquir no alto da
lâmina de lama,
cima a baixo rasgo

lado a quadro
voz que não sai
choro abortado
de dor que não há

mãe que não fui
para podar seus pecados,
esfriar meus pecados
dançar ao ocaso,

corpo e vírgula,
achado e perdido:
repetir a mentira,
repeti-la no espelho

ao vértice da cor
do ventre abaulado
à boca sem dentes
à vida sem rosto

menti por inteiro,
agulha de dentro
ao inverso que faça,
rasgando as costuras

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Como sempre,

O último a sair apague as dores.
(13/04/2009)

Introdução à razão do gás de isqueiro

Uma hora isso vai ter que parar. Uma hora.

Acho que já não está ao meu alcance.
Espero que não.
Senão, morrerei quando não tiver mais ninguém para culpar.

E me olharei no espelho,
e não terei dormido por 3 dias,
e me sentirei muito decadente
e talvez fique com nojo
quando pensar que isso talvez valha a pena
que talvez se eu eliminar o talvez a certeza virá
mais fácil, assim.

É fácil.

Não preciso mais de nada disso, eu direi.
Hoje eu não digo isso,
hoje eu não minto,
guardo para amanhã e para ontem,
depois de amanhã e antes de ontem.
(04/04/2009)

Everybody's Jumping

Me disseram que quando eu era criança, eu era um elefante. Mas era um truque.
Me disseram que quando eu era criança, eu era um sultão. Mas era um truque.
Me foi dito que eu nunca fui criança, me foi dito anonimamente.
Não liguei quando me vi no espelho e não era eu, mas estou começando a me preocupar.
Recebi dois pacotes no outro dia, um deles era endereçado a você. Fiquei com ele.
E no balé todas elas pularam ao mesmo tempo e sincronizaram a queda também e eu achei tão esplendoroso tudo isso que me deu vontade de dizer “ah”, me deu vontade de pular também, de um lugar mais alto.

Dave Brubeck acharia tudo isso uma grande coincidência.
 (18/01/2009)

quinta-feira, 17 de março de 2011

Que um dia eu pudesse ter feito algo assim me saiu demais.
Diria! Diria de outra maneira seria dito errado.
Grande é a vivacidade e a sensação.
Sobre. O importante é amar.
Ser amado peca.
Peca porque pode. Porque ser amado é poder. É poder entristecer-se infindavelmente.
Todo presente dado se esboroa em cacos.
Pedido ou não.
Amar é o importante.
Sobrediria!
Que é grande demais para mim.
Na infância acordava corrido e corria acordado procurando.
Que um dia pudesse...
Falta alento. Se ao menos fosse meu.
Poderia? Saberiam que não é assim.
Descabido.
Descabide.