terça-feira, 31 de maio de 2011

quando choro fico inchado
o mundo está mais gordo
de tanto segurar o choro
(01/04/2010)

Mimérrimo

Poço sem fundo
peito enfezado
umas duas moscasplumas
assustam as moças
(27/10/2009)

Fronte caída

Por favor,
diga que não dirá por favor por mim,
não me faça pedir por favor,
não me peça

Grotesco,
não vê no escuro
que mesmo em suas cobertas e seus cigarros apagados
eu mal me aguento de pé
e tem milhas de pés sobre mim
(07/10/2009)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Eu infrene
sem poder parar
de me frear

Coração de pedra
caindo, não para
de me sequestrar

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Eu não me basto,
por fim
eu me exagero
em ti
(15/09/2009)

Cerne humano

Traduzi longos e estranhos passos
em uma outra linguagem
língua de palavras
mudas

E ela me olhou
e brilhou, suou
todas as penas caíram
e a pomba se orgulhou
de sua fluência
(20/09/2009)

Retrocircular

Passarinhos, três árvores
vento e manhã invadindo pela janela,
depois
e não me sinto bem comigo
por querer cada cor que não conheço
e deixar cair o ritmo
na cinza do último cigarro
antes de lembrar quem sou
(28/09/2009)

Facada

Se eu fosse completo:
me esqueceria que vivo,
me deixaria em cacos,
tendo a convicção de poder me juntar tudo de novo.

Lembraria da vida só quando ela fosse imutável:
a cada gota de água dessa chuva que bate nos vidros
um baque ecoaria por dentro de mim, se exteriorizando,
se tornando a gelada marcha da vitória,
a incompreensão solitária e nunca desgastante.

Se eu fosse inteiro:
diria que sou denso,
não renegaria cada sorriso humano,
abraçaria as ondas que quebram em meu torso imóvel.

Me esgotaria.
Me faria sujo, me jogaria aos prantos e rolaria nos seus azulejos,
imploraria por uma espectral visão dessa Luz,
que se faz em você.

Não posso ser completo.
Não é um choro que me destrancaria,
não é a minha vitória,
não é a minha culpa.
Não foi. Eu, nunca foi eu.

Beleza não é distinta. Separada da náusea e do pavor, como ela brilharia?
Ressôo. Oco.

Se eu fosse completo:
rezaria para derreter.
(24/08/2009)

Madrugou o sol

Te difere e
fere e
noutra vida poderia passar sem tudo
tudoisso e
desacredito e me aqueço tudo
tudo de novo e
nada de novo, afinal
(28/08/2009)

Trópico

Para quem tudo é óbvio,
o óbvio perde a distinção.
Para quem junta pedaços,
pedaços se tornam um todo.

Para quem enxerga descolorido,
o azul do céu é inconcebível.
Para quem cujas almas são de secura,
um olhar apaixonado é um oásis.

Para quem vive de amor,
mais amor sempre existirá
e mais amor será desejado.

Se eu perdesse o seu olhar,
e no meu desejo ele fosse impossível,
racharia até secar inteiro.
(11/06/2009)

Parada respiratória

Quem procura versos antigos demais só encontra calçada,
esculturas de gesso deitadas na garagem da frente,
quebradiças como essas algemas deveriam ser.

Mas ela apenas não se cuida,
esquece das anfetaminas nos concentrados artísticos,
aumenta a queda por cada tentativa persistente.

Para cada lance de degraus que desaparece,
para trás e por debaixo das solas gastas,
a temperatura sobe e as apostas correm.

Corre também quem precisa,
quem procura precisar se abaixa quando tempesteia,
a flor de vento que envolve e deixa um beijo para
ser esquecida depois de marcada como um sinal de outros tempos.

Que sempre serão de ouro, quando visitarmos o futuro,
o que aguardar para o passado trazer
mais para perto e poder, assim, esquecer?

(Só lamentos para os que são nobres:
"Sua disposição matinal lhe enterrou nas fronhas mal-lavadas, meu senhor."
Cicatrizes que vingam ao lhe pintarem a flácidez indiferente da pele branca,
a indizível falta do que dizer pela perfeição não idealizada pelo faxineiro do tempo, -
eu não quero limpar restos não usados.
"Se faço o que deve ser feito é porque preciso fazer o que é preciso que eu faça feito.
Quando canso é que logo lembro que não sou quem finjo ser. Deveria parar agora mesmo, só me engano, humanitário, baboseira. Filantropia é a tentação infernal de pagar pelos pecados, é a maneira mais indigna e cômoda de procurar exterminar todo o ressentimento roxo que me contamina os poros e me faz chorar em toda noite verdadeiramente bela, enquanto a honestidade dentro das demais pessoas as faz aproveitar toda a grandiloquência dessa falta de exatidão no mundo."
"Tudo de que eu preciso é comida no final do dia, o resto são devaneios de quem veio ao mundo com mãos sem calos."
"Você é uma princesa por não se atormentar."
Os calos não respondem.
A noção de propriedade, de persona, de egocentrismo mental, a simples noção do "eu" não tem espaço nessa história. É tudo baboseira.)

É muito fácil enrolar linhas,
é muito fácil sorrir no final,
vestir-se e despir-se,
aproveitar os momentos,
sorrir no final.

Se eu soubesse o que é difícil não estaria aqui,
eu teria fronhas sujas.

(E espero. Até lá ninguém as lava.)
(15/05/2009)

Espuma

no ventre do sol,
escorrendo seus
olhos, sangue em pé
nos dedos rasgados

ou grandes espaços
não sabem, aumentam 
repetem o dia :
um cristal rasgado,

bege em flor de náusea,
faquir no alto da
lâmina de lama,
cima a baixo rasgo

lado a quadro
voz que não sai
choro abortado
de dor que não há

mãe que não fui
para podar seus pecados,
esfriar meus pecados
dançar ao ocaso,

corpo e vírgula,
achado e perdido:
repetir a mentira,
repeti-la no espelho

ao vértice da cor
do ventre abaulado
à boca sem dentes
à vida sem rosto

menti por inteiro,
agulha de dentro
ao inverso que faça,
rasgando as costuras