Como quando a gente, cansado,
deita-se de costas na madeira do chão e as bochechas pesam
e escorrem às orelhas
e o queixo côncavo, uma caverna de
todas as vergonhas, enfurna-se
e no pulso, sob os tetos do céu
ou sob o céu do teto que mais vemos,
essa inapetência que foge à palavra sobe-nos
assim, melindrosa, lasciva, clandestina...
Mas não me possui: não porque não deixo,
mas porque não tem como:
Sou ela, tanto também ela me é que,
sozinhos,
dividimos o silêncio de agonia - outro, o silêncio
que se lança de dentro da gente
independe dessa mesquinharia, dessa cama, da almofada,
é sagrado e não se verga porque é curva só e diferente -
O nosso silêncio que não veio porque desejado,
talvez desgraçado mas aceito por pusilanimidade,
aceito, embora dentro, onde falta o som igual,
o ruído de uma garganta engasgada com o Dia que lhe é pesado
esganiça por mais alma, alguma alma
e num descaramento, finjo perguntá-la
por o que mesmo havia trocado a mim mesmo.
(24/08/2010)
Nenhum comentário:
Postar um comentário